Obrigado, Campeões!

No início da presente época de 2022-2023, os nossos atletas Mário Peixoto e José Carlos Macedo anunciaram o término das suas brilhantes carreiras desportivas, as quais constituem um exemplo para todos, de luta, sacrifício, dedicação e talento.

Sem nunca terem perdido aquele sorriso na vitória ou na derrota, sorriso de verdadeira simpatia, franqueza e lealdade, vão-nos fazer falta a todos, mas estarão sempre connosco as suas lições no campo e fora dele. O nosso obrigado ficará sempre em dívida para com o enorme impacto por tudo o que fizeram, e alcançaram, nestes 30 anos, e pelas pessoas que sempre foram, e são.

A secção de Boccia reproduz neste artigo o testemunho que deram ao Clube e à região, na entrevista realizada para o Suplemento do SCB do Jornal Correio do Minho, em 21 de outubro de 2022.

Porque razão decidiu terminar a carreira desportiva?
Estava um pouco cansado, pois já tenho quase 50 anos de idade, sendo que 30 são como atleta de alta competição. Além disso, sinto que devo dar lugar aos atletas mais jovens que têm imenso talento. Depois, também existe o desejo de querer dedicar mais tempo à minha família que tanto me apoiou.

Qual o momento mais marcante na sua carreira?
A presença nos Jogos Paralímpicos de Pequim 2008 e do Rio 2016. Porém, também destaco a Taça do Mundo, em 1999, na Argentina, onde subi ao lugar mais alto do pódio.
Esta medalha irei doar ao SC Braga como forma de agradecimento pelo apoio prestado. Quero ficar ligado ao Clube e nada melhor do que contribuir com uma medalha marcante na minha carreira.

Que balanço faz do seu percurso desportivo?
Apesar dos altos e baixos, foi um trajeto extremamente bonito. Todos os sacrifícios e dedicação valeram a pena.
Foi uma caminhada repleta de muitas alegrias, aprendizagens constantes, de superação diária. Sem dúvida que tenho muito orgulho nas minhas conquistas.

Como olha atualmente para a evolução da modalidade?
Houve uma evolução muito favorável tanto a nível material como humano. Tive o privilégio de ser um dos fundadores da modalidade, juntamente com os meus companheiros de longa data José Carlos Macedo e Eunice Raimundo. Ver a secção de boccia crescer desta maneira ao longo destes últimos 13 anos em que representei o SC Braga é fantástico.

De que forma o SC Braga o ajudou a desenvolver enquanto atleta?
Foi o maior salto que dei. Antes de entrar para o SC Braga competia como utente de uma instituição de apoio a pessoas com deficiência. A principal diferença que senti nesta transição foi ser reconhecido e tratado como atleta de um clube, independentemente de ter alguma deficiência ou não. Ninguém tem noção do quão importante é sentirmo-nos valorizados. Olharem para mim como atleta levou-me a estar mais motivado, a querer conquistar medalhas para o clube da minha cidade.

Qual o impacto da prática da modalidade?
Mudou por completo a minha vida. Na altura, tinha terminado o 12º ano e como não tinha perspetivas de prosseguir os estudos vi no boccia uma oportunidade de ter objetivos concretos de realização pessoal. Acho que não podia ter feito melhor escolha. Temos
de ir atrás dos nossos sonhos e do que mais gostamos. A minha paixão era e sempre será o boccia. Se hoje sou a pessoa que todos conhecem deve-se à modalidade e a quem me acompanhou.

Porque razão decidiu terminar a carreira desportiva?
Após os Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020 decidi parar para descansar. Terminado esse mesmo ano tomei a decisão de terminar a minha carreira desportiva, pois foram 30 anos sempre em alta competição pelo mundo fora. Além disso, também estava na altura de dar o meu lugar a outros na Seleção e no Clube para mostrarem as suas capacidades e o seu valor. Existe muito talento neste país.

Qual o momento mais marcante na sua carreira?
É difícil escolher porque são imensas as vitórias que guardo com enorme carinho.
Tenho os Jogos Paralímpicos de Atlanta 96, Sydney 2000, bem como as duas vezes que fui Vice-Campeão Mundial e Europeu. Por último, em 2016, a condecoração feita pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com a medalha da Ordem de Mérito. Foi um momento especial porque simbolizou o reconhecimento ao mais alto nível de todo o meu trabalho.

Que balanço faz do seu percurso?
Estive ao serviço do SC Braga durante 12 anos. Foi um percurso fantástico. O boccia deu-me muito, mas também sei que dei muito à modalidade. Ao longo destes anos tornei-me num exemplo a seguir para muitos atletas. Até existe um pavilhão gimnodesportivo na minha freguesia com o meu nome em minha homenagem. Saio com a certeza de que sou e serei sempre uma referência a nível mundial do boccia e do desporto adaptado.

O Boccia do SC Braga começou com três praticantes. Como olha atualmente para a evolução da modalidade?
A modalidade cresceu significativamente. Prova disso é aposta recente no Boccia Sénior. A entrada de outros atletas também impulsionou o desenvolvimento da secção no Clube. No entanto, não podia deixar de referir que o empenho e a entrega total do
coordenador do boccia, Luís Marta, teve uma grande influência. Se hoje a modalidade é o que todos conhecem deve-se a todo o trabalho desenvolvido.

De que forma o SC Braga o ajudou a desenvolver enquanto atleta?
Representar este Clube é totalmente diferente de integrar uma associação. É sempre bom sermos reconhecidos pelos sócios em
qualquer lugar. Estarmos ligados a um clube desta dimensão é ótimo, pois ajuda–nos a ter mais visibilidade e aumenta a nossa ambição e o desejo de lutar por títulos.
Orgulho-me de ter representado o SC Braga e só tenho a agradecer aos seus dirigentes. Todos os dias superei-me e sinto que ajudei a derrubar o preconceito de que pessoas portadoras de alguma deficiência são menos capazes do que as outras.

Qual o impacto da prática da modalidade?
Foi enorme porque a minha paixão é o desporto. A modalidade abriu-me muitas portas e deu-me oportunidade de conhecer muitos países, ouvir o hino nacional quando subia ao pódio e ver a bandeira de Portugal hasteada.
Para além disso, tive a honra de ser o porta estandarte de Portugal no fecho dos Jogos Paralímpicos de Londres 2012 e na abertura dos Jogos do Rio de Janeiro em 2016.
Vivenciar todas estas experiências é uma sensação única. e indiscritível. Estes momentos vão deixar saudade.
O Boccia ajudou-me a mostrar que com ambição, garra e vontade de vencer tudo é possível de se concretizar na vida.

Falar do Mário Peixoto e do José Carlos Macedo, para mim do “Mário” e do “Zé”, é, em primeiro lugar referir a amizade que cimenta a nossa relação, fruto dos muitos anos de convivência, de muitos sucessos e tristezas, de muita partilha e colaboração, do muito que construímos em torno do Boccia. Não é possível destacar as pessoas que são, somente pelos seus feitos desportivos, e daqui encontrar uma afinidade pelo que alcançaram. É necessário realçar o que são, efetivamente, como pessoas, antes de serem atletas, enquanto atletas, e, agora, após deixarem de ser atletas. Sempre os admirei, no plano pessoal e no plano desportivo, e daqui a amizade que por eles nutro, pois, para mim, sempre “venceram”, em todas as provas desportivas, e da vida, porque ganhando ou perdendo provaram, de forma consistente, serem campeões, na sua dignidade e na preservação da dignidade de quem os rodeia. Verdadeiros desportistas, verdadeiros exemplos de superação, verdadeiros exemplos de existência com dignidade, por isso se tornaram uma referência para mim.

Mas, se é de realçar as pessoas que são porque o desporto é muito mais que resultados, importa, claro, falar nos seus percursos desportivos e do contributo que geraram para a comunidade. Pioneiros da modalidade na nossa região e fazendo parte dos fundadores da secção de Boccia do Clube, inscreveram uma marca indelével, eterna, no desporto da nossa cidade, da nossa região, do nosso país e, até, para lá das nossas fronteiras.

Ambos atletas atingiram o estrelato paralímpico e as medalhas paralímpicas, bem como patamares de excelência a nível europeu e mundial. José Carlos Macedo com uma carreira mais longa a nível internacional, praticamente em 30 anos, e com inúmeros êxitos; Mário Peixoto com um “terrível” 4º lugar em Pequim’2008 que não fica para a história dos “comuns dos mortais”, mas com a medalha de bronze de pares nesses paralímpicos e tantas outras em tantas mais provas de referência internacionais, igualmente num percurso na alta roda internacional até aos seus últimos Jogos Paralímpicos no Rio’2016.

Estas conquistas fizeram destes atletas referencias. Para o público em geral, para o mundo específico que roda em torno da modalidade, mas essencialmente para as crianças, jovens e adultos com deficiência, e para as suas famílias.

O que lutaram para alcançar, e o que alcançaram, serviu, e serve, de mote para que haja mais praticantes e que estes se sintam superiormente motivados para lutar pelos seus objetivos, sejam os objetivos desportivos ou os da sua vida para lá do desporto. As suas conquistas suavizaram a apreensão pelo presente, e futuro, por parte das famílias, pois tornaram-se exemplos a seguir, a confirmação de que nada é impossível, que tudo está ao alcance do esforço, da persistência, da determinação e da ambição por um advir melhor.

Tudo isto, e muito mais que não cabe neste pequeno texto, alcançaram com enormes sacrifícios pessoais, também dos seus acompanhantes desportivos (Roberto Mateus e Alberto Peixoto), e das suas famílias, para além de muitos outros que os acompanharam ao longo destes anos.

Sem dúvida que nem tudo “foram rosas”, mas muito mais “sangue, suor e lágrimas”. Na grande maior parte do seu percurso, nestes quase 30 anos, lutaram por um “deus menor”, com parcas condições de treino, com o estigma permanente da sua condição, e com a menorização encapotada de muitas das suas conquistas. Foram frutos de uma sociedade ainda com olhares “piedosos”, “caritativos” e “assistencialistas”, em que a “ocupação” era um bem superior ao da “superação”.

No entanto, muito contribuíram para a mudança deste paradigma. A perseverança dos seus feitos e exemplo derrubaram o preconceito e permitiram um “novo olhar” para a condição da pessoa com deficiência, mas muito especialmente para a condição do Atleta de Boccia, somente, caindo a visão de que a deficiência não se consegue distanciar do Atleta.

Que mais posso dizer de duas pessoas com “P” grande, de dois Atletas, com “A” grande, com quem tive o fortúnio de partilhar grande parte da minha vida? Que vou ter imensas saudades de os ter nos treinos,  de estar com eles nas provas…de estar com eles. Vão-me fazer falta, de certeza.

Agradeço a ambos a oportunidade que me deram de ser o seu treinador em todo o seu percurso desportivo. Crescemos juntos, aprendemos juntos e ensinamos juntos, sempre com o maior talento, competência, dedicação e respeito. Tenho a certeza de que fizemos algo na nossa vida, que valeu a pena tudo pelo que lutamos, e que os reflexos das conquistas, sejam eles quais forem, perdurarão para benefício de quem vier a seguir.

A ambos, para sempre, a minha admiração e amizade. (Luís Marta)